Uma história de amor

Coração com as iniciais L e CEra um suave doze de junho. O sol já estava quase indo dormir. Vovólima brincava na cozinha, preparando o jantar enquanto a Fabine permanecia sentada à mesa balançando as perninhas no ar. Ela olhava atentamente uma propaganda numa revista. Era um casal se beijando com um enorme coração ao fundo, com uns vidrinhos de perfume no canto inferior direito. Rompendo o borbulhar das panelas e o mastigar do Froid em sua ração, ela pergunta com sua esperteza costumeira:

– Vó, você ainda ama o vovô?

Os pais de Fabine ainda eram pequenos quando o seu avô faleceu. Seu único contato com ele era através de algumas fotos que ela havia visto naqueles grande álbuns de família ou ouvido nas estórias que o seu pai contava. Com um sorriso no rosto, Vovólima responde:

– Seu avô sempre terá um lugar especial no meu coração.

– Se ele tem, porque você vê o vô Nasório? – Fabine retruca erguendo as sobrancelhas.

– Deixe-me contar uma história de amor – Vovólima puxa uma cadeira, sentando-se do lado da neta.

Jovem VovólimaQuando eu era bem jovem, da um pouco mais nova que os seus pais, eu trabalhava numa grande universidade. Era o meu primeiro emprego. Trabalhava como assistente da biblioteca. Não era um emprego cheio de aventuras e desafios como nas histórias de fadas, mas era um local em que eu podia ajudar os outros a aprender mais. Naquela época, muitos alunos iam na biblioteca apenas para pesquisar livros para fazer trabalhos que os professores exigiam. Dava para contar nos dedos quantos nos visitavam com freqüência. Um deles era o seu avô.

Quadro com a foto do falecido esposo da Vovólima

Todo santo dia ele aparecia por lá. Tirava um livro da mala e passava horas e horas lendo em seu canto. Ele chegava depois da aula e só saia na hora da biblioteca fechar. Nunca trocamos muitas palavras além de “ois” e “olás”. Eu sempre o observava, muito curiosa para saber o que tanto ele fazia lá, mas como eu era tímida, tinha vergonha de falar com ele…

– A senhora com vergonha!? hihihi – Fabine ri colocando as mãos na boca.

– Pois é, por incrível que pareça eu morria de vergonha – nem sempre fui assim doida. Continuando, eu morria de vergonha e não conseguia falar com ele. Um belo dia antes de fechar a biblioteca, eu estava fechando as janelas e eis que ele surge atrás de mim, vermelho como um pimentão, com um papel na mão. Ele me entrega o bilhete e sai apressado da biblioteca. Sem entender nada, olhei para o papel. Por fora apenas estava escrito “… que o Drummond fale por mim” …

– Quem é Drumón?!

– Um poeta maravilhoso! Outro dia eu falo sobre ele. Com esse recado, abri o bilhete e li o que estava escrito. Decorei e nunca esqueci:

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

– Foi só aí que fui descobrir que o seu avô não ficava apenas lendo livros na biblioteca o dia todo, mas que ele estava lá para me ver e tentar falar comigo, mas como ele era muito mais tímido do que eu, não conseguia.

Agora quero saber de você: como eu duas pessoas tímidas como a Vovólima e seu esposo quebraram o gelo e começaram a namorar e como a Vóvis vai explicar para a Fabine que mesmo eternamente amando o seu avô, hoje ele namora o seu Nasório?

Buzinem!

Um grande abraço,

.faso

Atualização: tio .faso esqueceu de colocar o nome do poema do Drummond; é o As sem razões do Amor.

10 comentários sobre “Uma história de amor

  1. .faso disse:

    Uia! Gostei da idéia! Merece um joinha verde!!!

    Agora aquela pergunta: será que o primeiro beijo sairia por causa dos bilhetinhos ou a Vovólima ia atacar ele???

    Um grande abraço,

    .faso

  2. ana disse:

    ah… antigamente não era assim, essa coisa de atacar, não!

    no mínimo, seria um convite para um sorvete, ou um passeio pela praça, qualquer coisa assim… primeiro dá a mão, depois chega mais perto, e depoooois o beijo!

    ana

  3. Lucas "Spider" disse:

    Minha buzinada será breve dessa vez ehehehehe

    Gostei dessa idéia de troca de poemas! Acho que eles ficaram um tempo só na troca de poemas até que um dia, coincidentemente eles mandam o mesmo poema (escolham algum). Imagino os dois indo cada um pro seu canto, até que ao perceberem isso, ao mesmo tempo, dão uma gargalhada repentina e de alta sonoridade hehehehehe o que faz todos os visitantes da biblioteca se espantarem e olharem de cara feia para os dois. Os dois ficam vermelhos, mais muito contentes, combinam uma cafezinho após o expediente e pronto começa assim. =)

    Abraços a todos!

  4. Laura disse:

    “- Foi só aí que fui descobrir que o seu avô não ficava apenas lendo livros na biblioteca o dia todo, mas que ele estava lá para me ver e tentar falar comigo, mas como ele era muito mais tímido do que eu, não conseguia.”…

    Vovólima parecia um pouco emocionada, talvez fosse saudade do vovô; talvez fosse aquele sentimento bom, de lembrar de momentos especiais como se folheasse um álbum de fotos de emoções passadas, todas guardadas na memória.

    Ela continuou contando a história para Fabine: no dia seguinte, esperou ansiosa pelo jovem galanteador. Havia preparado uma resposta para ele, e à altura! Todos os dias, quando o rapaz chegava a biblioteca, escolhia sempre aquele mesmo lugar e lia sempre um livro que trazia consigo. Ainda assim – era regra pessoal – ele dava uma olhadinha em outro livro, sempre antes de ir embora. E vovólima sabia qual era…

    Ela deixou tudo preparado: posicionou o tal livro misterioso; colocou o bilhete de uma forma escondidinha, mas que certamente seria encontrado; e se certificou de que só o galante jovem entenderia o sentido do bilhete. Qualquer pessoa que encontrasse o pequeno papel amarelado pensaria ser apenas um “carinho” de outro leitor, e uma indicação de uma leitura agradável nas páginas daquele livro em especial.

    No bilhete dizia: “Somos sempre surpreendidos! E as surpresas geralmente caminham em vias opostas, esperando que sejam agradáveis para outras surpresas… Leia isso!”.

    Infelizmente, o livro ficou ali, parado, durante todo o dia de trabalho. Foi um dia estranho, que foi passando cansado… O jovem galante não apareceu. O que pareceu muito estranho a Vovólima! Ele sempre veio, pq justo hoje?

    No final do expediente ela recolheu o bilhete. Mas certa de que no dia seguinte tudo seria explicado… Que livro misterioso era aquele? Que surpresa é essa que Vovólima havia preparado para retribuir o carinho de sua surpresa inicial?

    Mas era a Fabine que não estava gostando muito dessa enrolação… Até aquela hora do bilhete, e a espera pelo vovô ela estava atenta e inquieta. Mas aí ele não apareceu?? Parecia que o mundo havia acabado… E ela resolveu agilizar a Vovólima:

    – Vó, pára com isso! Conta logo o que aconteceu… Ele apareceu? Leu o bilhete? O que era o verso?? Você ganhou um beijo dele?

    – Calma, menina. – ponderou a vovó. – Você precisa ter calma, viu?! Essas coisas de amor não acontecem assim, de qualquer jeito… Se seu avô estivesse contando essa história você levaria ao menos uma semana pra saber que ele me entregou aquele poema, pra começar!

    E ela riu devagarinho, enquanto o zumbido da chaleira parecia aumentar. A água fervendo levou a vovó a dedicar uns minutos de atenção ao jantar que preparava. Enquanto isso, Fabine imaginava (ou melhor, fritava seu cérebro de menina) o que dizia naquele livro misterioso…

    Enquanto servia a mesa para o jantar, Vovólima recomeçou a história: ela contou que no dia seguinte tudo estava, de novo, organizado. E dessa vez as coisas foram diferentes…

    Na hora de costume o vovô chegou à biblioteca, mais tímido do que de costume e foi em busca do conforto de sua mesa e cadeira pra “ler”. Bem, já sabemos que esse não era exatamente o motivo. O lugar estratégico na ampla sala repleta de estantes parecia mais um auditório, onde o rapaz selecionava a melhor posição para admirar uma obra cinematográfica ou uma peça de teatro.

    Ele sentou, e tudo correu como sempre. Mas dessa vez ele não se demorou tanto… Será que pensava que a vovólima não lhe correspondia os sentimentos? Começava a ficar envergonhado por se expor daquela maneira ridícula e agora nunca mais poderia ir à biblioteca? Apesar dos sentimentos confusos, e da grande dor que começava a ameaçar sua saúde emocional, o rapaz manteve sua rotina e foi em direção à estante e ao livro que sempre visitava. E encontrou, enfim, o bilhete da vóvis e leu o poema que ela lhe indicava…

    O mundo é grande e cabe
    nesta janela sobre o mar.
    O mar é grande e cabe
    na cama e no colchão de amar.
    O amor é grande e cabe
    no breve espaço de beijar.

    Ele leu, e leu e leu mais uma vez. Voltou, com o livro em mãos, para a mesinha oque lhe havia servido de sala de cinema por tanto tempo. Pegou um pequeno papel de dentro de sua pasta de trabalhos acadêmicos e escreveu: “Sinto que sua surpresa acabou de esbarrar na minha surpresa. E para minha nova surpresa, nossas surpresas são muito agradáveis entre si…”

    Leu para si e achou aquilo tão idiota! Surpresas surpreendendo outras surpresas? Ele sentia como se estivesse estragando o maravilhoso bilhete de sua adorada bibliotecária! E o que o Drummond tinha a ver com tudo isso? Tadinho. Enfim, estava dando certo…

    Junto ao bilhete e ao livro, anexou outro pequeno papel, que escrevera na hora, de “cabeça”, e que vovólima guardaria com ela para sempre… Era outro poema, de Drummond tbm, que dizia:

    Que pode uma criatura senão,
    entre criaturas, amar?
    amar e esquecer,
    amar e malamar,
    amar, desamar, amar?
    sempre, e até de olhos vidrados, amar?

    E essa brincadeira de poetar foi o que uniu os jovens… Que trocaram poemas ainda por algum tempo, antes que o jovem galanteador pudesse dedicar os versos ao olhar profundo de sua amada, enquanto segurava carinhosamente suas mãos.

    Fabine estava emocionada com toda aquela cena de novela. Nunca poderia imaginar que amores da tv aconteciam de verdade, entre as pessoas normais. Ela pensou que viviam com uma estrela de cinema, uma verdadeira mocinha… Mas e o seu Nasório, como ficava nessa história? Fabine já ia perguntando isso a vóvis, e dizendo que, então, ele devia ser o vilão malvado…

    Mas a Vovólima colocou um prato de macarrão e brocolis na frente da menina e disse: – As coisas não são bem assim, Fabine. Os contos de fadas, apesar de acabarem com um ‘viveram felizes para sempre’ e apesar de até serem verdade, não acabam ali… A vida da gente é um conto de fadas que não acaba, entende!?

    – Acho que não, vovó! – disse a menina, com uma massinha teimosa no canto da boca.

    – Bom, fato é que seu Nasório não é um vilão. E essa é uma outra história… Conto pra você outro dia, ok!?

    – Ok! Quero mesmo é saber desse tal de Drumón aí…

    :D

  5. .faso disse:

    Ana – verdade isso que você falou! Aliás, com essa falta de pudor e liberdade (ou será libertinagem) que temos hoje acabou com boa parte da candura que é estar abaixonado… virou algo mais viceral…

    Lucas – boa essa sua idéia! Vou trabalhá-la melhor nos próximos textos…

    Um grande abraço a todos,

    .faso

  6. Flávia Kahrolina disse:

    Ainda num li a história (tenho q ir trabalhar) maaaaaaais ameeei, a vovólima é menor que eu. Muito tudo :x OIJAOSjoajiosa

    :*:*

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *