Um pensamento de solidão: a tristeza que não é do meu coração

O ônibus tomava o seu rumo. Ruas e mais ruas passavam diante dos olhos da Kiki e aquele choro era a única constante no entra e sai dos passageiros. Aquilo estava a perturbando profundamente, mas ela não sabia como agir.

No meio da viagem, para um destino que ela não fazia a menor idéia de qual era, Kiki pode se sentar bem atrás da menina do microscópio ao lado. A sua dor provocava um enorme peso no coração da menina de cabelos rosa, o qual se enchia de agonia e sofrimento que ela desconhecia.

Em sua cabeça, pensamentos coloridos e perfumados sobre dias felizes ao lado de alguém, tornavam-se úmidos e acizentados. Ela sentia frio, mesmo o dia estando ameno, com um leve sol que acariciava seu braço direito. Perdida nesse mundo estranho, Kiki não havia percebido que a menina do microscópio ao lado havia ido embora, mas ela não sentia vontade de se levantar para a procurar. Seu corpo estava preso ali naquele banco duro, sentada ao lado de uma pessoa que ela desconhecia. Ela despertou desse sonho -ou seria um pesadelo?- com um calor gostoso em sua mão:

– Minha menina, você está bem? -perguntou a senhora que estava sentada ao seu lado- você está pálida e fria. Está passando mal?

– Não… não… eu estou bem -relutante, Kiki responde- só preciso ele de volta.

A senhora, com sua voz quente e suave, firma o seu toque nas mãos da menina:

– Olha, você deveria gostar muito dele, mas se ele te deixa assim, significa que não vale mais a pena. Você é uma menina jovem e linda, não precisa ficar desse jeito por causa do fim do seu namoro!

Kiki se espanta com as palavras da senhora sentada ao seu lado. Como assim “fim do seu namoro”? Por mais que ela quisesse, nunca havia namorado ninguém até aquele momento. Aliás, mal havia sido beijada -um selinho aqui e acolá não conta; e ela ignorava o fato de ter beijado aquele rapaz na quermece – foi puro excesso de quentão- como ela poderia ter um namorado e pior: ter acabado com ele? Sem entender muito sobre o ocorrido, ela dá um sorriso sem graça, agradece a atenção e se levanta, descendo no ponto mais próximo.

Algumas horas depois ela volta para casa (ela havia descido em um lugar que sequer imaginava existir, mas que tinha lindas casa geminadas, árvores lindas e ruas calmas com pássaros cantando). Sua mãe estava na cozinha como de costume. Sem fazer muito barulho, ela caminha até o seu quarto, pega um pijama rosa e azul xadrez, seu kit de sobrevivência, sua toalha com um gostoso aroma de amaciante e se envereda para dentro do banheiro. Ela toma um banho quente enquanto tenta refletir sobre aqueles sentimentos confusos que ela estava sentindo.

Com o corpo limpo e com os cabelos secos, ela empurra sua coleção de bichos de pelúcia e bonecas de pano para o canto da cama, entrando debaixo do cobertor, deitando-se de lado com o rosto virado para parede. O relógio ainda não havia mostrado a entrada da noite e ela já estava na cama. Ela não queria fazer outra coisa. Precisava estar ali e fugir um pouco do mundo.

Quando Kiki estava triste e queria fugir-sem-fugir, ela dormia. Ao fazer isso, sua mente se desligava dos problemas e ela conseguia ter um momento de paz. Mas desta vez, a sua tristeza não lhe pertencia. Era de outra pessoa. Uma pessoa que ela nunca havia sido apresentada, mas já conhecia uma faceta triste de sua vida. Em pouco tempo o sono veio e seu coração não sentia mais nada.

Ao acordar, o relógio já estava madrugando. Ela se levantou e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e pegou um suco para beber. Sentou-se no banquinho de madeira; a dor não estava mais instalada em seu peito e agora ela podia refletir sobre todo o ocorrido. Ela não conseguia entender como podia ouvir a menina do microscópio ao lado chorar e, principalmente, sentir coisas que não a pertenciam. Sabia que algo de grave estava acontecendo e que só ela podia ouvir – mas o que ela poderia fazer?

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Se você fosse a Kiki, como vocês reagiriam numa situação como essa? Vamos buzinar a continuação da estória. Se você não leu o conto inicial, dê um pulinho aqui.

Um grande abraço,

.faso

4 comentários sobre “Um pensamento de solidão: a tristeza que não é do meu coração

  1. .faso disse:

    O louco! Como assim? Pior que isso foi um cruzamento de idéias, tipo:

    – Uma amiga que acabou o namoro
    – Modo como eu reajo quando estou triste (sim, eu durmo)
    – Para ajudar os outros, já perdi meu caminho, minha hora de sono e muitas outras coisas (e não me arrependo um só instante!!!)

    Daqui a pouco estarei psicografando nessas estórias! (risos)

    Um grande abraço,

    .faso

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