Um pensamento de solidão: que seja para sempre enquanto durar

 
Aviso: Essa é a terceira parte da estórinha da Kiki. Se você não acompanhou os causos ainda, recomendo dar um pulinho aqui primeiro e depois aqui. Mas se você já leu tudo, então
 


Depois de ter acordado, Kiki não conseguia mais pegar no sono. Sua mente era povoada por perguntas e fatos que a deixavam mais intrigada. Levantou-se, saiu da cozinha e se sentou no sofá da sala. A TV não mostrava nada de novo; apenas programas sobre feras selvagens e pseudo aventureiros desafiando a vida em ambientes controlados. Até um programa sobre a história do tijolo estava passando naquele momento. Um pouco chateada, resolveu desligar o televisor e ir para o seu quarto.

No meio do caminho, ela pôde ouvir sua mãe ressonando baixinho através da porta do quarto. Ela gosta de ouvir a sua mãe ressonar, pois assim ela tem certeza de que ela está bem. Uma vez, quando pequena, ficou aflita. Ao parar em frente ao quarto da mãe não ouvia um barulho sequer. Achava que ela poderia ter ido embora, mas tinha medo adentrar o recinto e ir verificar. Sua calma só foi restabelecida quando a ouviu roncar. Sua mãe roncava e provavelmente ela também fazia o mesmo, mas ela não tinha vergonha disso. Sabia que o ronco era o melhor indicativo que estávamos vivos ao dormir.

Já no seu quarto, ela pode perceber que sua gata estava dominando a sua cama. Dormia como um pequeno anjo negro de nariz rosado sobre a coberta bagunçada. Como ela havia se despedido da sua cama, resolver usar o computador para se distrair até a hora de ir para escola.

A primeira coisa que ela fez foi ver os seus e-mails; não havia nenhum novo. Seu MSN estava quase despovoado e, as poucas pessoas que estavam acordadas como ela, não iriam lhe dar atenção. Resolveu escrever em seu blog -um blog secreto que ninguém sabia de sua existência. Era lá que ela descarregava suas emoções. É claro que ela poderia fazer isso em um diário usual, mas o simples fato de alguém poder descobrir as suas blogagens e se identificar com ela, era o motivo necessário para ela continuar aquilo. Quem sabe não descobriria um novo amigo ou um novo amor? Aliás, amor ela teve aos montes no colégio, mas nenhum que soubesse dos seus sentimentos. Ela é uma pessoa muito fácil de se apaixonar. A cada descoberta; a cada papo novo ela pensa que poderia ser feliz ao lado daquela pessoa, mas esse pensamento vai embora da mesma forma como surgiu: sem deixar rastros.

Passadas algumas horas, era possível ouvir os pássaros acordando e começando a cantar. Os primeiros ônibus começavam a circular na rua e a sua hora de “levantar” estava quase chegando. Resolveu tomar outro banho. Até o pequeno banheiro parecia enorme enquanto o mundo dormia. Foi um banho rápido – não demorou mais que dez minutos. Sua gatinha já havia acordado e, mesmo com a cara de sono, miava para ela pedindo carinho. Na cozinha, ela resolveu fazer café. O cheiro de café fresco é um grande estimulante para ela. Faz ela pensar nas pequenas coisas da vida. As coisas mais simples e puras.

Sua mãe acabara de acordar. Sua irmãzinha também. Ela é muito serelepe e não fazia nem dois minutos que havia se levantado, já estava no chão da sala vendo a TV. Kiki apenas curtia o momento, ouvindo sua mãe brigando com a sua irmã, dizendo para ela se arrumar para tomar café. Pouco tempo depois as três já estavam fora de casa. Kiki ia a pé para escola. Às vezes ela ida de ônibus, quando estava com preguiça de caminhar, mas hoje ela queria curtir cada instante.

Um dois quarteirões antes do seu colégio, havia uma pequena praça com uma enorme árvore no centro. Ela gostava de observar aquela árvore. Mentalmente, ela desejava “bom dia!” para a senhora Ipê, que de tempos em tempos lhe presenteava com lindas flores amarelas. Ela achava engraçado como o chão cinza virava um tapete amarelo, o qual a maioria das pessoas pisava sem o devido respeito, afinal aquela era casa da senhora árvore e, pelo menos, as pessoas deveriam limpar os pés e pedir sua benção para passar. De repente ela escuta um choro baixo; um choro que não lhe era estranho. Devagar ela se aproxima da parte detrás da senhora árvore e, para sua surpresa, a menina do microscópio ao lado estava ali sentada, com as pernas juntas e o rosto molhado.

Pela primeira vez as duas se olham. A menina do microscópio ao lado tenta esboçar um sorriso enquanto Kiki sentia que o seu semblante franzia suavemente as sobrancelhas. Ela queria poder fazer algo pela menina, mas não sabia por onde começar. Ela sente uma voz dentro do seu ouvindo dizendo para ela se aproximar e perguntar como ela está. Com muito receio, ela o faz. Sua boca abre tentando engolir um pouco de coragem perdida no ar. Seu peito infla e ela fala:

– Err.. você tá bem?

O semblante da menina do microscópio ao lado muda completamente. Sua boca se contorce juntamente com os seus olhos e sobrancelhas. Para a surpresa da Kiki, a menina a abraça bem forte a sua cintura, desatando a chorar. Kiki entra em desespero, sem saber o que fazer. Seu único movimento consistiu em baixar seus braços e amparar a menina. Kiki consegue se sentar e abraça a menina do microscópio ao lado. Novamente ela consegue sentir aquela dor que não lhe pertence. Uma dor profunda que a também a faz querer chorar. E ela chora.

Com olhos cerrados, Kiki começa a ver imagens turvas. Alguns barulhos estranhos. São pessoas conversando. Sirenes. Ela se vê diante de uma cena triste: um carro preto, batido em um poste. Ela vê um braço alvo saindo pela janela estilhaçada da porta. Sua mão a toca. De repente ela é puxada para trás. Sente pessoas segurando o seu corpo, afastando-a do carro. Ela chora. Chora muito e tudo fica preto. Esses novos pensamentos são interrompidos pela voz fraca e trêmula da menina do microscópio ao lado:

– … ele se foi. Não era para ter ido. Eu o amava tanto. Íamos casar. Ter filhos e ser felizes para sempre! – e o choro novamente começa. Neste instante Kiki entende o ocorrido. O namorado da menina do microscópio ao lado havia sofrido um acidente. Ele havia morrido. Ela não teria mais como ouvir ele ressonar. A dor era muito intensa e ela não queria mais sofrer. Doía demais.

Kiki nunca havia consolado ninguém, principalmente alguém que havia perdido um ente querido. Sem mais e nem menos, a menina do microscópio ao lado estava com a cabeça no seu colo. Kiki fazia cafuné nela. Em sua mente ela tentava encontrar algo colorido. Algo azul que fizesse feliz. Kiki lembrou-se de uma vez, quando um primo seu havia falecido. Todos choravam no seu velório, inclusive ela. Ela chorava sem entender muito bem o que acontecia, mas a tristeza do ambienta a contaminava. Foi quando uma senhora colocou a mão em sua cabeça, dizendo:

– “Não chore minha menina. Nada e nem ninguém dura para sempre. Mas enquanto durar, tudo será para sempre. É disso que precisamos para sermos felizes.”

Na época ela não entendia direito o que aquilo significava, mas com mais idade ela aprendeu o que a senhora queria dizer. Por mais que a menina do microscópio ao lado estivesse triste, ela precisava continuar. Não podia mais se lembrar daquela cena horrível. Ela tinha que olhar para todos os momentos bons que eles tiveram – que era para sempre enquanto os dois estavam juntos, como o primeiro beijo que ela deu nele, os muitos sorrisos, às vezes que eles ficavam sozinhos juntos e o mundo parecia parar.

Quando Kiki abriu os olhos percebeu que a menina do microscópio ao lado estava sorrindo e feliz em seu sono, como se todo aquele desespero não fosse mais nada além de um pensamento que não lhe pertencia mais. Ela havia feito algo com aquele pensamento ruim, pois ela não o podia sentir mais.

—————-

Há algum tempo atrás li no blog de minha amiga Monica, o Moda na Música, um post sobre uma tal de “Mallu Magalhães”. Eu a desconhecia e na época não fui me interar mais sobre ela, mas hoje “uma voz sussurou em meu ouvido” que eu deveria ver o que ela fazia. Para o meu espanto, descobri isso:

Se um dia eu fizer uma animação da Kiki, essa é certamente a música de abertura (a “Tchubaruba“). Apenas a melodia me trouxe pensamentos bons, mas a letra encaixa perfeitamente com o que eu penso sobre a Kiki (ainda me espanta saber que as pessoas acham que ela é do mal. Será que eu escrevi isso em algum lugar?). Leia o seguinte trecho (via Terra):

(…)

When I saw her she was just crying, under my favorite tree

I talked to her and I was trying, to show her what she couldn’t see

Behind the flowers in a light she found the sun

Behind the sad I showed her the life is really fun

(…)

Tradução livre:

(…)

Quando a vi ela estava chorando, sob a minha árvore favorita

Eu falei com ela e eu estava tentando, mostrar a ela o que ela não conseguia ver

Atrás da luz nas flores ela achou o sol

Atrás da triste Eu mostrei que a vida era realmente divertida

(…)

Primeira vez na minha vida que a melodia de algo que eu gosto casa com o que estou escrevendo. A Kiki é isso. Alguém que mostra o que os outros não conseguem ver.

A ilustração desse post é totalmente inspirada no clip da “Tchubaruba“.

Um grande abraço,

.faso

9 comentários sobre “Um pensamento de solidão: que seja para sempre enquanto durar

  1. Kiki disse:

    .faso entrei aqui e fiquei procurando a história um tempão… :P
    depois que vi que ela estava logo abaixo do post do vacachorro. ^^

    amei, mesmo! e concordo com o que você disse sobre tudo ser eterno enquanto durar, não só no sentido da morte, como em outros sentidos também, inclusive amor.

    sem mais palavras! vc é foda! não tem jeito sou mesmo sua fã! me amarro no seu trabalho! :DDDD

    beijo enorme! muah! ;*

  2. Marina disse:

    Quantos anos tem a Kiki?

    Quando eu comecei a ler, achei que ela fosse uma criancinha.
    Mas pelo visto, consolando amigas de escola que já tem namorado que era pra vida inteira…

  3. Monica disse:

    Ahhhh!!! Que fofa essa Kiki *sem a cruz do mal* ehehehehe

    Muito obrigada por ter me citado no seu post Faso…

    Nossa! Não sabia que vc não conhecia a Mallu. Ela já é ícone do My Space brasileiro, eheheh.

    E achei demais a sua Kiki, de galochinhas….o/

    …e vc me falando da Mallu no Gtalk…não sabia q ela tinha te inspirado tanto assim.
    Que bom! Fico feliz que pude te ajudar a conhecer mais uma fonte inspiradora.

    Um abração, fica com Deus!
    Moni

  4. .faso disse:

    Kiki – que bom que você gostou! Tava com um medo danado de não agradar a expectativa que acabei gerando. Realmente, nada nessa vida é para sempre, mas quem disse que não pode ser eterno enquanto durar?
    Camila – Weeeeeee!!! o/ Vou dar uma olhada! Muito obrigado, viu?
    Marina – A Kiki tem por volta de 15/16 aninhos – é a nossa teen do .marca.
    Monica – “Cruz do mal” é o melhor! Hahaha Menina, se eu tivesse me atrevido a ouvir a Mallu quando você citou no MnM, séra que hoje eu seria mais jujubento??? Ó dúvidas…

    Um grande abraço a todas,

    .faso

  5. pedroca disse:

    no começo do texto tinha muito de faso ali né ?
    aliás,me lembrou que você ainda não respondeu meu email. ai ai ai heim :D vou ficar impaciente e mandar outro cheiinho de letrinhas

    eu não sou fã-fã da mallu,mas é bom quando uma música te faz sentir bem né ? uns calafrios gostosinhos que espalham pelo corpo e te deixam (mais) feliz :D
    overdose de felicidade,Êba haha!

  6. .faso disse:

    Filhão,

    Pensei que havia respondido o seu e-mail – já o fiz nesse instante.

    Realmente, muito da história da Kiki tem um ‘cadim sobre a minha pessoa, mas há outras referências de pessoas que eu conheço, convivi ou observei.

    Acredito que seja impossível escrever algo sem observar o que a própria vida tem a nos oferecer – fica vazio e sem sentindo.

    Também não sou fã da Mallu, mas as musiquinhas dela caíram como uma luva para tudo aquilo que eu sentia quando eu escrevia. Sabe, quando ouvi a música, fiquei com a imagem da abertura do desenho animado passando diante dos meus olhos. Era lírico e delicado, como um bom Shojo mangá!

    Um grande abraço,

    .faso

  7. Helena disse:

    Oi faso!

    Voltando aqui!

    Preciso te dizer que amei a história da Kiki…ela é muito querida…e concordo contigo…ela não é do ma, não!

    A música da Malu realmente se encaixa perfeitamente com a Kiki!

    Já estou aguardando pelo próximos capítulos!

    Parabéns! Muito show!

    Quero uma Kiki pra mim…ela é lindinha! :D
    Bjus

  8. Kamila disse:

    Ahh.. demorei pra ler esse capitulo mas hj acordei pensando nele já! eheheh Adorei…

    Ela nunca fez o mal ué.. não sei daonde as pessoas tiraram isso. Na verdade eu tenho dó dela.. as vezes é muito mais facil ignorar as situações a nossa volta do que ter que prestar atençao e ainda tentar resolvero problema dos outros..

    bjs!!

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