O caminho dos sonhos

Era uma sexta-feira muito fria. Na rua as pessoas não sabiam se deveriam andar depressa para fugir do frio ou se ele piorava com o andar apressado. Os poucos passarinhos que se aventuravam a voar pelo céu deveriam estar bem agasalhados, com seus vistosos cachecóis de lã, visto que lá em cima o vento corria livre e solto, como uma criança gordinha brincando na beira da praia. Na Vila dos Ipês não se via crianças em frente as casas – todas elas estavam encolhidas em seus cantos, brincado de forma contida para não quebrar as louças de suas respectivas mães. Mas na casa 14 o clima era diferente.

Fabine estava gripada, logo o seu costumeiro ânimo para pulular estava atarracado. A pobrezinha estava tão debilitada que passara o dia todo dormindo na sala, dividindo a coberta com o Froid que nessa época do ano gostava apenas de comer e ficar em algum lugar quente, como sobre a TV ou embaixo daquele paraíso aquecido chamado “cobertor”. O grande relógio bailava no ritmo do sol ir dormir quando a Vovólima gentilmente coloca sua mão quente sobre a testinha da Fabi, que preguiçosamente abre os olhos para ver quem a chamava:

– Ei menininha! Está na hora de levantar! Fiz um delicioso chocolate quente para você esquentar essas orelhinhas branquinhas… tá se sentindo melhor?

Fungando o nariz ela responde:

– Snif… sim vó… só tô com a cabeça doendo um pouco…

– Nhum, acho que deve ser sua sinusite que deve estar atacando novamente. Foi bom você ter ido ao médico hoje. Lá pelas sete horas eu te dou o remédio novamente, assim minha menininha fica boa logo-logo! – a vovó dá o seu terno sorriso, passando a mão sobre a cabecinha da Fabine.

– Ah vó! Não quero mais tomar esse remédio não! Ele me dá sonhos que eu não gosto!

– Oxe! Como assim Fabi?

Dando um pequeno gole no seu chocolate, ela continua:

– Eu sonhei que a senhora estava andando de costas para mim e eu não conseguia chegar em você. Te chamava e você não me ouvia. Até o Froid não queria falar comigo! – e mais uma vez ela coloca a enorme caneca na boca. – toda vez que eu sonho com a senhora, você me ouve e me abraça. Agora com esse remédio ruim você não me abraça mais. Não quero mais ele.

A vovó senta-se ao lado da netinha enquanto o Froid emerge da coberta se espichando e se espreguiçando todo:

– Não foi o remédio que deixou os seus sonhos ruins, você só teve um pesadelo. Quando eu tinha o seu tamanho, minha mãe me ensinou um truque para eu sempre ter bons sonhos.

– Snif… verdade!? Sua mãe era mágica?!

– Haha! Sua biza não era mágica, mas tinha os seus truques. É assim que se faz: toda vez que você estiver com soninho, os sonhos começam a abrir a sua portinha, permitindo que você veja o Caminho dos Sonhos…

– Caminho?! E sonho tem rua, vó? Sonho não é sonho? – a Fabine indaga com os olhinhos surpresos

– Sim, sonhos tem ruas sim. Várias delas, algumas lindas e maravilhosas e outras escuras e estranhas. Mas antes de entrar no mundo dos sonhos, você só verá dois caminhos: um escuro e um claro.

– Eu nunca iria pelo escuro… tenho medo do escuro…

– Eu também não, mas o escurinho é bom para dormir, né? Mas é exatamente aqui que está o desafio: você não pode escolher em qual entrar, pois o senhor Sonhador -o porteiro do Caminho dos Sonhos- é quem vai te guiar. É ele que escolhe por onde você irá.

Fabine com uma voz aflita interrompe a avó:

– Mas do que adianta ter dois caminhos se eu não posso escolher aonde ir?!?! Não vou mais dormir… não quero ir pelo escuro…

– Calma menininha. É aqui que entra o truque que minha mãe me ensinou: quando você estiver deitadinha esperando o sono chegar, tente se lembrar de coisas boas e alegres que você fez no dia, pois na hora em que você for cumprimentar o senhor Sonhador ele vai querer saber o que você viu o dia que se foi. Se ele perceber que você está alegre, ele vai te levar pelo caminho iluminado, pois só assim ele terá como ver o que se passou.

Depois de ouvir isso, Fabine ficou em silêncio, matutando sobre como a sua bisavó deveria ser uma mulher muito inteligente, pois ela sabia como enganar o senhor Sonhador. Em um lampejo inesperado para a sua idade, ela comenta.

– Vó, o senhor Sonhador tem TV?

– Acho que não, por quê? – a vovó responde surpresa

– Então é por isso que a gente não pode ver filme de terror antes de dormir né? Senão o seu Sonhador vai querer ver o filme também, aí a gente se assusta duas vezes. ‘Brigado vó! – Fabine dá um beijo na Vovólima, descendo do sofá, arrastando o seu cobertor pelo tapete da sala naquela sexta que acabara de esquentar.

Esta é a minha forma de agradecer a todos que se preocuparam com a minha ausência. Que os nossos sonhos sejam sempre alegres e coloridos, fazendo-nos sorrir perante o senhor Sonhador.

Um grande abraço,

.faso

9 comentários sobre “O caminho dos sonhos

  1. Paula disse:

    Você é uma criança, .faso. De que outra forma saberia exatamente como é estar no lugar delas? rs Obrigada por voltar com a Fabine também. Tenho estima especial por ela e pela Vovólima.

    Um abraço apertado. Bom te ter de volta!

  2. Kiki disse:

    Saudades de você! Nem acredito que te vi entrar no MSN ainda pouco! XD História linda, mas não sei se ela funcionaria comigo visto que eu NUNCA sonho. Bom, pelo menos nada que eu me lembre! :P

    Beijo gigante! Muah! ;*

    PS: Vê se não some mais! Sinto sua falta! ;)

  3. Mila Bomtempo disse:

    XD

    historinha linda, fasim!
    e posso dizer q a bisa da fabine tah certinha… comigo sempre acontece!
    então, pensamentos positivos SEMPRE pra gente ter sonhos e a nosso vida todo linda e colorida!

    bejocas .fasim!

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