A voz do silêncio

Folhas balançando ao vento

Era tarde de terça. Fabine estava tomando um banho antes do almoço enquanto a Vovólima verificava sua agenda para ver quais lições ela tinha para fazer. Dentro dela, havia um bilhete da professora, pedindo para ela entrar em contato com a escola. Preocupada, ela liga para o colégio e fala durante alguns minutos com a “tia” da Fabine. Sua costumeira expressão de felicidade havia mudado.

Após o banho Fabine senta-se a mesa. Do outro lado de onde ela estava, ficava o pratinho de comida do Froid e este acabara de acordar do seu sono matutino, louco para beslicar alguma coisa. Com um pulo, ele sobe na mesa. Fabi toma um susto, pois não havia percebido a chegada do seu fiel companheiro de chá.

O dia estava suavemente quente e ensolarado e as árvores do quintal balançavam para esquerda e para direita, como se a brisa lá fora cantasse e animasse a festa. Froid ainda comia e mastigava a comida com vigor, como se não comesse há dias. Fabine achava isso engraçado, pois metade da comida que ele tentava engolir acabava sendo espalhada para os lados. Após deleitar-se com o seu banquete, Froid senta-se enquanto os seus enormes olhos amarelos a fitam. Os dois se entreolham, quando Fabine vê o Froid abrindo a boca. Aquilo lá não era um bocejo, parecia um miado abafado – novamente ele abre a boca e se aproxima dela, esfregando-se em seu braço. Ela não entende porque o Froid tá miando tão baixinho e, assustada vai falar com a vovó.

Ao sair da mesa ela dá de cara com a Vovólima, que estava o tempo todo ao seu lado. A cara da vovó não era a mesma. Ela só a havia visto assim uma vez na sua vida, mas não se lembrava direito o que havia acontecido. Olhando para o rosto da vovó, ela percebe que ela balbuseia algumas palavras que ela não consegue entender direito. Novamente a vovó fala, em um tom que a Fabine consegue entender:

– VAMOS COMER RAPIDINHO QUE EU MARQUEI UM MÉDICO PARA VOCÊ!

Ela estranhou o comportamento da avó, que sempre foi calmo e sereno e como não sabia o motivo de tudo aquilo, ela resolveu comer em silêncio. E foi desse modo que transcorreu o almoço. Mais tarde, elas estavam no médico, um senhor tão velhinho como a Vovólima. Fabine observava tudo sem saber o que estava ocorrendo. Eles apenas se cumprimentaram e o doutor usou um aparelhinho engraçado para ver o seu ouvido. Ela precisou entrar em umas salinhas onde ela colocava uns fones de ouvido enquando ouvia uns barulhinhos estranhos. Depois disso ela ouviu alguns comentários sobre uns tais de ‘tibióticos que ela podia jurar que deveria ser um bichinho muito feio e engraçado para poder ter um nome desses.

Tempo depois ela estava na sala de espera chupando um pirulito que o médico havia lhe dado. A vovó conversava com o doutor dentro do seu consultório. A moça bonita da recepção a olhava, dava um sorriso e acenava com a cabeça, mas não pronunciava nada. Aquele consultório era o lugar mais calmo que ela havia visitado.

Passado algum tempo, Vovólima sai da sala do médico e anda em direção da Fabine. Extendendo a mão para a neta, as duas vão embora. No bondinho Fabine podia observar a paisagem. Estava um calor gostoso naquele começo de noite. Tudo era tão bonito. As poucas luzes acesas pareciam estrelas de árvores de natal. Os carros e as pessoas caminhavam calmamente. Tudo estava tão suave e calmo – até as buzinas do carros haviam sussurrado durante sua passagem.

Chegando em casa, Fabine tira os sapatinhos na porta para não levar sujeira para dentro da casa. A Vovólima está bem atrás dela fazendo o mesmo movimento e logo ela coloca os dois pares de sapato dentro da sapateira. Sentando em uma poltrona ali perto, ela chama a Fabine que fica em pé bem de frente para ela. Ela nunca havia visto a sua vó triste, forçando a sua boquinha para esboçar um sorriso. Ela começa a falar em um tom forte, porém não tão alto como na primeira vez, na hora do almoço.

– Fabi, eu já te falei que o silêncio tem voz?

– Não, a senhora nunca falou. Por que você tá assim vó? Nunca te vi assim triste!

– Sabe, todos pensam que o silêncio é algo ruim – algo diferente. Mas não é assim. Muitas pessoas vivem no silêncio. Mas mesmo se não há nenhum barulho, há muito o que dizer e ouvir. Nosso corpo inteiro pode funcionar como as palavras que saem da nossa boca – basta aprendermos como fazer isso.

Sem entender o que a sua vó queria dizer, ela indaga:

– Mas porque tudo isso vó?

A vovó puxa todo ar que o seu pulmão poderia suportar e passando a mão na cabeça da netinha ela sorri – não como o seu costumeiro sorriso quente, mas uma expressão não tão feliz, mas verdadeira.

– Nós duas vamos ouvir a voz do silêncio. Eu e você. O mundo ficará caladinho para podermos aprender coisas novas…

A expressão da Fabine muda. Ela desvia o olhar da vovó, o que a faz interromper o seu discurso. Com lágrimas nos olhos, ela fala com sua costumeira esperteza.

– Vó, não precisa se preocupar. Eu sei que estou começando a falar com o Sr. Silêncio. Não é bom, mas sei que vou sempre poder falar com você – porque só quem fala com o coração sabe como ouvir tudo, mesmo que em silêncio.

E um forte abraço foi a única coisa que rompeu o silêncio.

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Um grande abraço,

.faso

9 comentários sobre “A voz do silêncio

  1. DRIKAA disse:

    NESSA TARDE DE TERÇA O TIO.FASO, APROVEITOU A TRISTE CHUVA PARA NOS FAZER CHORAR, COM TAMANHA NOTICIA…..!!! MAS ESPEREM O TEMPO SEMPRE MELHORA AO AMANHECER !!! BJS

  2. Viver por Amor disse:

    Bem, que história bonita. Triste, é verdade, mas ao mesmo tempo linda! Pois é tão calma e terna, que quase se pode sentir esse silencio junto a nós. Eu gostei!E gostei especialmente da clareza e sensatez com que Fabine encara o voz do silêncio que começava a falar com ela.

    Muito talento por aqui!=)

    ***=)

  3. Marina disse:

    ai que lindo! é engraçado pensar em como as vezes as coisas não tomam o curso ‘natural’ da vida.

    era para a Vovólima encarar a voz do silêncio conforme a idade vai chegando.
    mas é a Fabine, tão novinha e tão pequena que já tem que o vai fazer.
    tenho certeza que ela o fará brilhantemente!

    amei!

  4. .faso disse:

    É um alívio ver que o texto agradou vocês. Levei uns 3 meses para conseguir escrever isso – vocês não sabem como está me doendo ter que deixar a Fabine surda. Fiquei com o coração doendo ontem, mas como a Marina disse, algumas coisas não tomam o curso “natural” da vida.

    Tenho certeza que a Fabine, com a ajuda da Vovólima, vai superar qualquer problema que apareça pelo caminho.

    Um super abraço,

    .faso

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