A cor do coração

Vovólima criança brincando com sua amiga.

Um pequeno conto em homenagem ao Dia da Consciência Negra.
Vovólima estava dentro da sua biblioteca particular – um quarto da sua casa em que ela atulhara de livros, revistas e outros tantos encadernados que ela havia adquirido durante toda sua vida. A vovó devorava pelo menos um livro por semana e agora tentava encontrar um lugar para guardar sua última leitura – o que demonstrava ser uma tarefa um tanto quanto complicada. Nesse interim Fabine adentra no quarto-biblioteca, puxando a barra da saia do avó, dizendo:

– Vó, a senhora é marronzinha por comer muito chocolate? – indaga Fabine

– Não, não meu amor, sou redondinha por comer muito chocolate – Vovólima responde rindo para sua neta – ajude-me a descer daqui menininha. Me fala porque você quer saber disso agora …

Como se estivesse segurando a pessoa mais frágil do mundo, Fabine segura firmemente a mão da vovó, ajudando-a a descer os três degraus da escadinha. Depois ela responde:

– Ah vó, é que eu estava olhando para minha mão hoje: ela é bem branquinha, quase da cor do leite. Não é marronzinha como a sua. Queria ficar igual a senhora. A senhora é grande e forte. Não tem medo de barata e de escuro; queria ser assim… será que se eu tomar muito chocolate eu consigo ficar marronzinha?

Encantada com a inocência da netinha, Vovólima senta-se em uma cadeira perto da grande mesa, colocando a Fabine sobre alguns livros que estavam empilhados no chão:

– Sabe Fabi, na minha escolinha a minha melhor amiga era tão branquinha como você, mas os cabelinhos dela eram amarelinhos como a sol. Seus olhos também eram diferentes: era azuis como duas jujubas de anis. Naquela época, nós não ligávamos se uma tinha o tom de pele diferente da outra. Apenas brincávamos felizes.

– Um belo dia no recreio nós duas brincávamos de uma olhar para outra sem piscar. Foi assim olhando por muito tempo para os olhos dela que eu percebi algo…

– Que vocês não eram iguais, vó? – Fabine interrompe

– Não, não! Pelo contrário! Olhando aqueles enormes olhos azuis fixados em mim, eu perguntei para ela: “você vê o mundo como eu vejo; com um céu azul, as folhas verdes e as rosas vermelhas?” – e com a maior sinceridade do mundo ela me respondeu que sim.

Franzindo a testa, Fabine retruca:

– Mas vó, todo mundo não vê o mundo com as mesmas cores?! Senão o meu lápis amarelo ia ser azul para a professora e ela ia brigar comigo por ter feito um sol azul…

– Claro que sim meu amor! O mundo é igual para todo mundo, só que algumas pessoas o vêem de forma diferente. Eu achava que minha amiga não via o mundo da mesmo forma que eu, justamente por seus olhos serem de outra cor.

Visivelmente confusa, a netinha pergunta:

– Mas vó! O que isso tem haver com a pergunta do chocolate?!?!

Rindo da confusão que provocara na cabeça da neta, a Vovólima continua:

– É exatamente isso que eu queria falar: não é a cor que nos faz melhores e mais corajosos. O que nos faz fortes é tudo aquilo que carregamos dentro do nosso coração e ele não tem cor. Por mais que eu seja marronzinha e você branquinha, nós duas somos iguais.

Fabine ficou em silêncio. Sua cabecinha tentava entender tudo aquilo que a vovó havia dito. De repente um sorriso surge no seu rosto:

– Entendi vóvis! Se a gente não fosse colorido, como que a vovó iria saber que era a vovó e eu que sou eu? A nossa cor é para não nos confundirmos porque todo mundo é igual por dentro.

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Minha pequena contribuição para o dia Consciência Negra, que diariamente deveria ser o dia do Coração de todos.

Um grande abraço,

.faso

5 comentários sobre “A cor do coração

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