A senhora das águas

Passava das três da tarde e Fabine estava entediada. Os desenhos da TV eram os mesmos que ela já havia visto e nos outros canais só passavam programas de culinária e causos de família, sendo esse último algo que a Vovólima não a deixava assistir. Suas bonecas eram as mesmas e as brincadeiras que ela conhecia já não a entretiam mais. Na esperança de encontrar algo para fazer ela sobe as escadas em direção ao quartinho de livros de sua avó.

Apesar de não saber ler direito, Fabine gostava de folhear os livros em busca de desenhos. Ela gostava de ver aquelas ilustrações com as quais imaginava estórias suas, com finais felizes e comilança para comemorar. Em uma dessas buscas ela se deparou com a seguinte imagem:

A sereira Iara

Ela não conseguia imaginar por quê uma menininha tão lindinha possuía um rabo de peixe. Aquilo não combinava com ela. Fabine ficava imaginando que ela deveria gastar muito perfume para esconder o cheiro de peixe daquele rabo. Se ela fazia isso deveria ser muito cheirosa e em sua mente aquele menininha com cauda de peixe deveria ser uma princesa… mas qual era o reino que tinha uma princesa com rabo de peixe? Foi aí que ela se levantou e foi perguntar para sua avó:

– Vò, de onde que vem essa princesa aqui ó! – Fabine aponta para ilustração no pesado livro

– Ah! Ela não é uma princesinha não, é uma deusa. A deusa das águas. Seu nome é Iara.

Fabine ficou surpresa e tentava imaginar como seria uma missa dentro da água. Possivelmente todo mundo usava óculos de mergulho e roupa de banho. Ela começou a rir ao imaginar o padre de sunga:

– O padre deve ficar muito engraçado usando sunga na missa! – ela gargalhou

– Que padre? –  indagou Vovólima

– O padre da missa da Iara. Para poder ir na igreja embaixo d’água ele precisa de sunga para não molhar aquela roupa comprida.

Vovólima deu uma risada muito gostosa com a ingenuidade e inventividade de sua netinha. Ela dandou a explicar quem era Iara:

– A Iara não tem igreja como aquela aqui perto. Quando falei que ela é uma deusa, não estava me referindo que ela é como o papai do céu. Ela é uma deusa dos índios.

– Há muito tempo atrás em uma aldeia lá em cima na Amazônia, vivia uma bela índia chamada Iara. Seu pai tinha outros filhos, mas seu pai gostava mais dela pois ela corria mais rápido, usava o arco e flecha como ninguém. De tanto elogio seus irmãos ficaram com ciúmes dela e armaram um plano para ela não deixar de existir. A noite eles entraram em sua oca e a tentaram prendê-la, mas como ela tinha os sentidos mais aguçados que eles, ela evitou o ataque, dando uma lição nos seus irmãos.

– Nossa vó! Que moça corajosa! Mas… mas como ela conseguiu aquele rabo de peixe fedegoso? – indagou Fabine

– Como eu disse, ela consegiu revidar os ataques dos irmãos, machucando-os muito. Ela ficou com medo de levar uma grande bronca do seu pai e acabou fugindo. Ele ficou muito triste com o que ela fez, principalmente por não ter assumido o seu erro…

– Erro!? Mas ela foi atacada! Ela tinha que se defender!!! – a netinha interrompe, aflita.

– Pois é, ela realmente não cometeu nenhum erro, mas para o pai dela uma grande guerreira como sua filha não podia ter feito aquilo, e fugir foi assumir a culpa. Continuando, após fugir seu pai colocou a aldeia inteira atrás dela e quando a acharam ela foi expulsa da tribo e jogada no encontro dos rios Negros e Solimões.

– Lá ela ficou desesperada. A água estava muito fria e agitada. Ela tentava nadar contra a correnteza, mas mesmo com toda sua força ela não conseguia vencer o rio e desistiu de nadar, afundando.

Fabine estava muda e com os olhos esbugalhados. Não conseguia imaginar como a Iara devia estar se sentindo naquele momento. Ela queria pode fazer alguma coisa. Se imaginou enfiando a mão no livro e puxando a guerreira do fundo do rio. Seus pensamentos foram interrompidos quando a vovó continuou.

– Mas não se desespere minha menininha! Os peixes daquele rio ficaram com dó dela e a levaram para uma grande pedra que ficava bem no meio das águas. Ela adormeceu por causa do esforço e só abriu os olhos depois de escurecer. Ao olhar para o céu ela pôde observar a lua saindo por trás de uma nuvem. Ela começou a chorar por se lembrar que não tinha mais casa para voltar. Observando aquilo, a Lua com uma voz serena disse.

– “Por que choras minha criança”

– “Eu não tenho mais casa para voltar e nem família para amar. Quem vai cuidar d’eu?”

– “O rio é o seu novo lar. Basta para ele retornar” – retrucou a Lua

– “Mas minha mãe. Na água eu não posso estar. Água eu não respiro e posso me afogar”

– Nesse instante a Lua brilhou mais forte e sua cálida luz começou a cobrir as pernas da Iara. No lugar delas uma linda cauda de peixe surgiu; a Lua se despediu dizendo:

– “Agora minha filha, tu é menina e tu é peixe. Nade livre e cante fora do seu novo lar”.

– Desde esse episódio os índios contam que se você ouvir uma cantoria vindo dos rios, é a voz de Iara cantando para se lembrar que aquela menina já foi uma moça que só respirava ar. Os mais curiosos são atraídos por sua cantoria e são convidados a viver nas águas com ela, mas sem poder nunca mais voltar para a terra.

Fabine gostaria muito de conhecer a Iara e poder brincar com ela e com os peixes, mas sem poder voltar para casa era um preço que ela não queria arriscar. Ela subiu para o seu quarto, tirou a roupa e foi para o banheiro, entrando embaixo do chuveiro. Vovólima estranhou o silêncio e foi ver o que a netinha fazia:

– Fabine, porque você está tomando banho?

– Eu quero brincar com a iara, mas não quero deixar a senhora. No chuveiro eu fico na água e com os pés no chão, assim depois de vê-la eu poderei voltar.

E Vovólima deu um sorriso gostoso e aproveitou para dar um banho em sua netinha.


Antes de mais nada: desculpe-me pela imagem escura e em PB. Fiz no meu .fasoskine e as páginas são mistas, logo calhou de ser a página de color plus marrom.

Inspirado por muitos comentários (eletrônicos ou presenciais), resolvi testar uma forma diferente de bonecar. A partir de uma estória eu vou criar um boneco e junto com ele irá um livrim do conto que inspirou o ser de pano.

Demorei para perceber que faço poucos personagens femininos fofolete e comecei a rabiscar umas meninolas, quando saiu a dona Iara que ilustra esse post – gostaram?

Escolhi começar com folclore por ser um tema que eu praticamente não vi na minha época de escola (e pelo que vi, nem o meu irmão caçula). Assim além de fazer uma releitura e redesign de ícones da nossa cultura, espero conseguir plantar na cabecinha das crianças (e adultos, por que não?) o quão gostoso é rico nosso folclore.

Vamos ver se hoje eu faço essa Iara jujubenta! X)

Um super abraço,

tio .faso

Atenção: Saiba mais sobre o mundo da Vovólima, visitando o Guia da Vovólima.

3 comentários sobre “A senhora das águas

  1. Camila disse:

    Sem palavras… Suas histórias tem um tom.. É como se estivess numa livraria ouvindo um cntador de histórias. Não é apenas para ser lida! Eua dorei!!!!
    A idéia dos livrinhos é perfeita!!!
    estou encantada! Adorei o tema tb!
    mandando flickrmail!!!

  2. Paula disse:

    Tem um livro legal que fala sobre folclore.
    Filhos da Mata, o autor é um ex-professor meu, Hilton Mercadante.
    Seria legal ver sua visão dos personagens que ele desenhou…

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