Lucério: o diabo estagiário

Era tarde da noite e eu ainda estava tentando terminar o meu trabalho. Não sei se era devido ao sono ou ao cansaço (ou os dois juntos), mas eu estava muito impaciente. Tudo parecia mais lento, mais demorado, mais agonizante. A degraça era tanta que até o bloco de notas demorava para abrir. “Que inferno!!” – pensei comigo mesmo – e após um suspiro, tomei um susto:

– Isso significa que estamos fazendo o nosso trabalho direito! – a voz desconhecida exclamava, como se estivesse orgulhosa de si mesmo.

“Acho que o cansaço está tão grande que eu estou imaginando coisas. Melhor eu parar por aqui” – pensei com os meus botões, mas quando já havia me convencido que aquilo era um sinal do meu cérebro falhando, eis que ouço novamente:

– Você não está imaginando coisas. Sou eu mesmo que estou falando. Aliás, te acompanho há tempos em silêncio, mas você é tão divertido que não resisti em me manifestar.

“Ok. Eu nunca bebi na minha vida. Nunca usei qualquer tipo entorpecente. Se não é o sono, deve ser um fantasma. Vou rezar e talvez ele suma” – após pensar isso a estranha voz gargalhou muito. Poderia até dizer que se ela fosse uma pessoa, deveria estar rolando no chão. Chegou até a engasgar. Eu estava petrificado e por mais que eu quisesse fazer algo, minhas pernas não se mexiam e eu havia esquecido o Pai Nosso.

– É por isso que eu gosto tanto de você! Você me mata de rir! Não sei o que é mais engraçado: achar que eu sou um fantasma ou tentar orar o Pai Nosso. Isso não funciona comigo, menino! Deixe-me apresentar direito…

E após um “PUF!” uma pequena criatura apareceu flutuando na minha frente. Ele parecia um homenzinho cabeçudo, vestindo roupas vermelhas e possuía uma enorme cauda na mesma tonalidade. Seu olhos eram enormes, delineados por olheiras e lábios grossos; ele mantinha um ar blasé de quem se achava superior a tudo e todos. De dentro da roupa, puxou um pequeno estojo preto, com um monte de papéis brancos. Ao me entregar um, pude perceber que eles eram pequenos cartões de visita e foi aí que descobri o seu nome:

Close no Lucério

– Me chamo Lucério, sou o seu demônio pessoal – disse, fazendo reverência.

Não sei se eu deveria ter tido um infarto, mas minha curiosidade foi maior que o meu susto (e convenhamos: se ele parecesse um monstro, EU TERIA TIDO O INFARTO). No seu cartão só possuía o seu nome e o número “555”.

– “Mas o número da besta não é ‘666’ ? ” -pensei.

– O 666 não é o número da besta – Lucério interrompeu meus pensamentos – é apenas a maior graduação na Firma. Eu ainda sou estagiário, tenho 111 níveis para subir.

Isso sim era novo: um diabo estagiário. E ele chamou o inferno de “Firma”! E apesar de afirmar ser o meu “demônio pessoal”, ele não aparentava em nada aquelas imagens grotescas de criaturas bestiais. Ele parecia uma pessoa comum, usando uma fantasia de demônio, como se fosse uma roupa que eu poderia encontrar em uma loja de fantasia. Ele continuou a falar, sentando-se sobre a minha mesa:

– Esqueça tudo o que você sabe sobre o Inferno. Todos tem uma noção errada de nós. Pára de trabalhar aí que agora é a minha vez de contar uma estória.

—-

O Lucério é um dos meus personagens mais antigos (anterior a Vovólima) e com a ajuda da minha querida amiga Amanda Hoezel finalmente ele começou a ter um mais definido.

O Lucério foi o terceiro boneco que eu fiz, mas na época que eu não tinha muita prática (com lápis e agulha). Mesmo assim eu havia pensado em um mundo para ele existir (que gostaria de mostrar a vocês, se quiserem).  Aliás, foi com ele que o .marcamaria tomou o formato de “boneco com estória” – “E por que você não escreveu a estória?” – você me pergunta. O motivo foi “bobo”:  eu não sabia fazer a camisetinha dele (o uniforme que eu havia planejado).

Design original do Lucério (2007)

Design original do Lucério (2007)

O tempo passou e eu não esquecia o danado. Volta e meia eu o rabiscava em algum canto. Tinha uma imagem mental, mas não conseguia colocar no pano. Até um mini-mi dele eu projetei, mas foi só há dois dias que eu tive a epifania:

Esboços do Lucério

Esboços do Lucério

Estou há tanto tempo fazendo apenas mini-mis (e programando mais do que eu gostaria), que deixei de fazer bonecos como eu criava antigamente: mais complexos, trabalhosos e muito gostosos de se criar. Então abandonei o minimalismo extremo e tentei criar um personagem que eu gostaria de ver em algum livro.

O boneco do Lucério

Como eu só tenho programado atualmente, fazia muito tempo que não parava e fazia um boneco, principalmente um desafio para o tio .faso. O danadinho me consumiu 15h de trabalho, mas tentei fazer um boneco a modo antiga, mas com técnicas que eu desenvolvi (e tentei algumas coisas novas). Ah! Ele é oficialmente o maior boneco que eu já fiz: ele mede 41 cm do “chifrinho” ao pé.

Lucério: 40cm de altura, feito com moleton, malha, feltro e algodão cru Lucério sentado com capuz Lucério sentado sem capuz Detalhe do "555", número do diabo em fase de estágio Detalhe da cauda presa com um botão, demonstrando que a roupa de diabo é uma fantasia Asinhas para lembrar que o diabo já foi um anjo

Na minha visão do inferno, os diabinhos não tem chifre. O Lucério tem aquelas coisinhas para cima pois aquele é o formato do seu cabelo! XD

Para reforçar a idéia que ele está fantasiado de diabo, a cauda da roupa é presa com um botão, é molenga e se arrasta pelo chão.

Gostaram do Lucério? Querem que eu continue as estórinhas dele? Aliás, me responda: quais as coisas que fazem sua vida um inferno?

Um super abraço,

tio .faso

Atualização: Aproveitei que precisava corrigir alguns errinhos de português e revi toda estória introtutória do Lucério. (13/09/2010)

8 comentários sobre “Lucério: o diabo estagiário

  1. Paula disse:

    Amei o Lucério, Faso! E essa história de graduação da Firma, eu ri sozinha aqui. Que sacada! Além de tudo, o visual dele é ‘tudibão. Lindo, lindo.

    Só pra te dar um feedback.. Como estou doente, o que tem feito minha vida um inferno é sala de espera em consultório. Tudo me irrita. Aquelas revistas velhas, aquele povo com tosse, aquela tevê sintonizada na Malhação… Enfim, fila e sala de espera é coisa do capeta.

  2. Florencia disse:

    Adorei o Lucério! É super diferente as coisas q vc vem fazendo. Cada día os bonecos saem mais lindos, acontece conmigo tb :)

    Coisa do capeta é viajar em busao lotado ou metro. Vixe, nao suporto mesmo. É o inferno en vida .tio!

  3. Pati disse:

    Aff… tava precisando ler um diálogo assim! Tbém tenho cá o meu diabinho pessoal, mas ele não nome. E acho até difícil achar pra ele um nome melhor que Lucério… hahahaha…

    E o que tem feito da minha vida um inferno é uma vizinha! Não ela pessoalmente, mas os 25 gatos dela, os 18 cachorros que ela tem dentro de casa junto com mais 5 canis com pelo menos uns 3 em cada um, esses últimos nunca consegui contar direito até hoje. E boa parte dessa bicharada teima em usar meu quintal de banheiro! Isso sim é um inferno! E mais infernal ainda é não conseguir providências nem da vigilância sanitária e nem do ministério público!

    Pronto phaley!!! Ü

  4. Helison disse:

    FAso. Q demais o Lucério outra visão do mesmo personagem, adorei ele.
    Sobre o que anda fazendo minha vida um inferno graças a Deus poucas coisas, mas odeio aqueles dias onde tudo e todos se desencontram, imagino até uma história com o lucério tentando afastar dois possíveis amantes que o cupido ta tentando juntar… rs rs

    Outra, não sei se você conhece os livros de Clive Barker, mas ele tem uma coletânea de contos, onde num deles ele conta sobre um homem e seu demônio pessoal, normalmente ele retrata o terror, mas esse conto é totalmente humor!
    Se chama “O Yattering e Jack” – Livros de Sangue 1

    • Tio .faso disse:

      Helison – tudo bom? Você me fez tirar do armário um livro que comprei em 2001 e que até agora não havia lido: O “book of blood I” que você indicou.

      Exceto pelas partes dos gatos que me deixam sempre com um pézinho atrás, a estória do “Yattering e Jack” me fez sorrir o tempo todo enquanto lia. Realmente obrigado pela sugestão.

      Um super abraço,

      tio .faso

  5. Márcia Ramos disse:

    Muito engraçada a história do Lucério. Eu tenho um primo dele estagiando aqui, o Lucélio, que está atrasando meus trabalhos… Ele sempre vem me mostrar alguma coisa mais legal para se fazer, bem na hora que eu sento no pc para projetar… desse jeito, Lucélio vai ser promovido rapidinho! =(

  6. Aline disse:

    Adorei o novo Lucério!! Achei essa fisionomia dele ótima, hehehe!

    Respondendo: o que mais está encapetando minha vida é a falta de tempo, tentar fazer tudo ao mesmo tempo e não ter um resultado positivo! Pra resolver isso só um paraíso com um batalhão de Angelus, cada um fazendo uma coisa pra você! :D

    Bjos e parabéns pelo trabalho!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *